Relato de Experiência

18/02/2010 12:48

  Relato de experiência apresentado pelos professores Marcel, Francisco e André, na I Jornada Pedagógica do Clube Escolar Rio das Pedras - realizado na 7ª CRE (RJ), em 11 de Setembro de 2009.

 

Relato de Experiência

Clubes Escolares da Prefeitura do Rio de Janeiro - Oficina Karate

por Marcel Cavalcante

 

Em 2005 iniciou-se um processo dentro do projeto de Extensão denominado Clube Escolar, que foi a reunião dos professores dos clubes escolares que possuíam em sua grade curricular a oficina Karate.

 

Vários eventos vêm sendo realizados ao longo do tempo e um sentimento de união do grupo, junto a um compromisso com a qualidade do trabalho, são elementos que norteiam o fazer pedagógico de cada um desses professores.

Os clubes que hoje possuem a citada oficina são: Rio das Pedras, Engenho de Dentro, Fundão, Mangueira, Campo Grande e Sesme Ramada (Sepetiba), com seus respectivos professores: Marcel, Francisco, Márcio, André, Alexandre e Ubirajara (no mesmo clube) e professor Marcelo Otonni.

É possível observar que a oficina de Karate se diferencia das demais, não só pela maior quantidade de eventos que realiza, mas também pela comunicação aparentemente mais facilitada entre os professores envolvidos. Talvez um dado importante, seja o fato de alguns destes professores já se conhecerem antes mesmo do projeto. Acredita-se que este possa ser um dos fatores facilitadores de todo processo.

 

Outro dado interessante é a afinidade de objetivos - da oficina e dos professores de Karate, apresentados ao longo dos anos, (sabendo-se que o Clube Escolar por si só, apresenta objetivos bem específicos e definidos): A primeira coisa a ficar explícita, e que de certa forma se diferencia da prática do Karate em outros locais, é o mesmo ser praticado como lazer e não como treinamento. (É muito comum crianças de 7 a 10 anos já estarem federadas e treinando intensamente buscando o rendimento de alto nível – algo que felizmente não acontece nos clubes escolares).

 

Mas o que é realizado de diferente?

Em 2005 deu-se início ao Festival de Karate dos Clubes Escolares, realizado anualmente no Clube Escolar Rio das Pedras. O primeiro diferencial a chamar a atenção foi a premiação: Todos os aluno/atletas são premiados. Todos com medalha de ouro. Algo que certamente gera certa confusão no entendimento dos alunos, levando-se em consideração a influência da mídia e toda a tradição desportiva em premiar-se primeiro, segundo e terceiro lugares.

 

Como se dá este processo?

Acredita-se que o Karate desportivo apresentado nos Clubes Escolares não pode somente discursar sobre igualdade, sobre “o que importa é competir”, ou ainda: “Vivenciar, experienciar” e ao mesmo tempo continuar em sua práxis agindo da mesma maneira que os eventos ditos oficiais. Detectou-se a necessidade de romper com este paradigma da importância de um campeão, percebendo-se outra necessidade mais urgente, que é a da cooperação, da interação entre os diversos sujeitos envolvidos em todo o processo (Boal, 1980). Paralelamente, há em aula uma discussão com os maiores interessados: Os estudantes. Observa-se todo ano uma resistência velada em forma de falta de entendimento real de como se dá a premiação igual para todos. No decorrer das discussões - incluindo o depoimento de alunos mais antigos - em sua grande maioria os alunos mostram-se receptivos com a idéia e mais: sentem-se pertencentes ao evento, responsáveis pelo “espetáculo”. O que não deixa ser outro objetivo da oficina: Que o educando sinta-se sujeito da ação, tanto quanto seus colegas e seu professor (Freire, 1996).

 

Este sentimento de pertencimento gera uma autonomia muito interessante do ponto de vista pedagógico, uma vez que o educando se envolve e se compromete cada vez mais com a aprendizagem (Freire, 1987).

O evento acaba sendo a culminância de um processo que se inicia no decorrer das aulas.

Outra preocupação relevante do grupo de professores é a necessidade em se transmitir as informações referentes à cultura implícita na luta. O idioma, o comportamento característico de um lutador, a história, o pensamento oriental, enfim: Tudo o que está em torno do Karate, fazendo com que o aspecto técnico específico da luta, se torne não mais o “Ator principal da peça”, mas sim, um “membro da equipe, tão importante quanto todos os outros” (Boal, 1980).

 

Outros eventos tão importantes quanto o festival, são realizados também anualmente. São eles: Encontro de Lutas, Torneio Clube Escolar Mangueira, Exame de Faixa Integrado, dentre outros.

O Encontro de Lutas é realizado sempre no Clube Escolar Engenho de Dentro e como o nome propõe, os alunos passam por oficinas de 30 a 40 minutos de cada luta: Karate, Capoeira, Judô, dentre outras. Um ponto muito importante deste evento é a possibilidade de envolver num mesmo dia, professores das diversas lutas, de diferentes clubes escolares. Este talvez possa se tornar com o passar do tempo e da organização, o maior dos eventos de luta dos clubes escolares.

O Torneio no Clube Escolar Mangueira, tem como característica premiar os alunos de forma tradicional, porém, premiando também aqueles que não obtiveram as primeiras colocações, com medalhas de participação. É o evento onde o educando tem a chance de vivenciar um torneio nos moldes “oficiais”, com regras mais próximas da realidade do esporte como é praticado fora dos clubes. Entende-se que tão importante quanto experimentar formas novas de premiação e organização desportiva como um todo (como é feito no festival), é trazer para o aluno a visão dita tradicional, ampliando a visão de mundo deste aprendiz.

 

O Exame de faixa integrado é o momento da culminância da avaliação técnica feita durante todo o ano. É sempre ao final do ano letivo, no Clube Escolar Fundão. Trata-se de uma experiência ímpar: O aluno é avaliado por uma banca de professores, além de ter a possibilidade de prestar exame junto a colegas de outros clubes escolares.

O que se avalia de todo este processo descrito acima, incluindo todos os eventos, encontros e momentos de reunião, é que o trabalho do Karate vem crescendo pouco a pouco, consolidando-se cada vez mais, não só em termos de desenvolvimento técnico, mas de uma interação legítima de todos os atores comprometidos com esta conjuntura (Sousa, 1985).

Por volta de 1920, um professor – Gishin Funakoshi, junto a seu mestre – Anko Itosu – incluíram o Karate no currículo das escolas públicas de Okinawa, conseguindo mostrar os vários benefícios que a prática daqueles movimentos poderia trazer para o aluno. O Karate, que anteriormente era praticado somente por homens adultos, conseguiu uma abertura frente à sociedade e a partir disso o Karate começou a ser praticado por crianças, mulheres e idosos (Funakoshi, 1990).

 

Trazendo para nossa realidade, o Karate - assim como as diversas oficinas oferecidas nos Clubes Escolares, pode cumprir um papel muito importante na democratização de conteúdos antes considerados elitizados e restritos a poucos. Independente de como este educando leve o Karate para sua vida após sua infância e adolescência (seja como atleta, professor ou apenas espectador), certamente uma contribuição valiosa terá sido agregada à formação deste sujeito.

A perspectiva é que o trabalho continue melhorando a cada ano. Desta forma ganha o Karate, ganha o Clube Escolar e principalmente: Ganha o educando.

 

Bibliografia:

- Freire, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes Necessários à prática educativa:

       Paz e Terra - SP, 1996.

- Freire, Paulo. Pedagogia do Oprimido: Paz e Terra – RJ, 1987.

- Boal, Augusto. Teatro do Oprimido e Outras Poéticas Políticas: Civilização Brasileira

        RJ, 1980.

- Funakoshi, Gishin. Karate-Do Meu Modo de Vida: Cultrix – SP, 1990.

- Sousa, Herbert. Como se faz Análise de Conjuntura: Vozes - RJ, 1985.