O Karatê-dô É um Só (por Gichin Funakoshi)

26/04/2010 10:30

 Retirado da obra "Karate-Do Meu Modo de Vida", este trecho é bem interessante pois nos traz um misto de história (da melhor forma q existe, contada por alguém que viveu o karate em sua plenitude!) com opinião, pois O'Sensei deixa muito claro o que ele pensava a respeito dos caminhos que o Karate estava tomando.

 

Uma Ótima leitura! Oss!

 

"O Karatê-dô É um Só

 

 

Em minha opinião, um problema sério que assedia o karatê-dô atual é a

predominância de escolas divergentes. Acredito que isso terá um efeito deletério sobre o

desenvolvimento futuro da arte.

Como sabemos, havia em Okinawa, nos tempos antigos, duas escolas, Nahate e

Shurite, e considerava-se que tinham ligação com as duas escolas do boxe chinês

chamadas Wutang e Shorinji Kempo que floresceram durante as dinastias Yuan, Ming e

Chin. Atribui-se a fundação da escola Wutang a um certo Chang Sanfeng e a da escola

Shorinji ao próprio Daruma (Bodhidharma), o fundador do zen-budismo. De acordo com os

relatos, ambas as escolas eram extremamente populares, e seus seguidores davam

freqüentes demonstrações públicas.

A lenda nos conta que a escola Wutang recebeu seu nome a partir da montanha

chinesa onde o karatê teria sido praticado pela primeira vez, enquanto Shorinji é a

pronúncia japonesa para o Templo Shaolin na Província de Hunan, onde Daruma pregou o

caminho do Buda. Segundo uma versão da história, seus seguidores eram fisicamente

despreparados para os rigores do treinamento que ele exigia; assim, depois de muitos

caírem de exaustão, ele lhes ordenava que começassem, já na manhã seguinte, a treinar

seus corpos de modo que suas mentes e corações se dispusessem a aceitar e seguir o

caminho do Buda. Seu método de treinamento era uma forma de boxe que veio a ser

conhecido como Shorinji Kempo. Por menos que se aceitem as lendas como fato histórico,

penso que quase não há dúvida de que o boxe chinês realmente cruzou o mar na direção

de Okinawa, onde se misturou com um estilo de luta de punho originária de Okinawa para

formar a base do que hoje conhecemos como karatê.

Anteriormente, as duas escolas chinesas de boxe estavam relacionadas com duas

escolas de Okinawa, Shórin-ryú e Shõrei-ryú, mas, é claro, o exato relacionamento que

existia entre elas há muito se perdeu nas névoas do tempo. Casualmente, a verdade é a

mesma com relação às escolas Shurite e Nahate.

O que sabemos é que as técnicas da escola Shõrei se adaptavam melhor a uma

pessoa de corpo grande, enquanto as técnicas Shõrin eram mais adequadas a pessoas de

compleição menor e de menos força. Ambas as escolas tinham suas vantagens e

desvantagens. A escola Shõrei, por exemplo, ensinava uma forma mais

eficaz de autodefesa, mas lhe faltava a mobilidade da escola Shõrin. As técnicas de karatê

dos dias atuais adotaram as melhores qualidades das duas escolas.

Repito que isto é como deve ser. No Karatê-dô contemporâneo, não há lugar para

escolas diferentes. Sei muito bem que alguns instrutores proclamam ter inventado katas

novos e incomuns, e assim se arrogam o direito de ser chamados fundadores de “escolas”.

Já ouvi até mesmo pessoas atribuírem a mim e a meus colegas a denominação de escola

shotokan, mas me oponho firmemente a essa tentativa de classificação. Minha convicção é

que essas “escolas” deveriam fundir-se numa única, permitindo assim ao Karatê-dô evoluir

 

de maneira organizada e benéfica na direção do futuro do homem."

 

Oss!